sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Problemas Sociais: O Racismo.



Bruno Candé Marques, foi assassinado a 25 de julho de 2020, à luz do dia, em Loures, com quatro tiros disparados por um homem de 76 anos, acusado de homicídio qualificado e detenção de arma ilegal. As razões de cunho racista do crime foram debatidas por toda a comunicação social. Segundo a família da vítima, o assassino já tinha ameaçado e proferido insultos racistas três dias antes do ocorrido. Apesar do comissário da PSP afirmar que com o questionamento de testemunhas ninguém fala em atos racistas, outros testemunhos não podiam ser mais objetivos: "Vai para a tua terra", "Volta para a senzala", "Vou violar a tua mãe", "Fui à tua mãe e àquelas pretas todas". O crime terá ocorrido devido a um episódio que envolvia a cadela de Bruno Candé que ao ser insultado respondeu "Você não fala mais assim da minha mãe", terá assinado a sua sentença de morte, obteve como resposta "Tenho armas do Ultramar em casa e vou-te matar". Bruno cresceu na Zona J, de Chelas, desde criança queria fazer teatro, era pai de três filhos, e é agora lembrado pela sua força, e sonhos ambiciosos interrompidos por um hediondo crime. O racismo matou e continua a matar.


Neste contexto surgiram movimentos sociais, que funcionam como agentes fundamentais na produção da mudança, com o objetivo de serem defendidos e debatidos novos valores. Por toda a parte têm aparecido movimentos pela luta antirracista numa tentativa de salvaguardar os direitos dos envolvidos, desenvolvendo para isso ações coletivas que podem ocorrer fora das esferas institucionais regulares. Este tipo de movimentos caracterizam-se por uma organização mais informal, por formas de ação coletiva diversificadas e onde os seus protagonistas pertencem a diferentes categorias socioeconómicas. A expansão destes movimentos acontece sobretudo através das redes sociais, que se tornaram os mecanismos preferenciais de comunicação, os quais viabilizam um espaço de comunicação alargada e mediática, para propostas e projetos que rapidamente se espalham pelo mundo assumindo o papel de movimentos sociais globais.


Portugal precisa com urgência de falar acerca de racismo, a ideia de que não somos um país racista ainda persiste. Dados do European Social Survery através de uma amostra de 40 mil pessoas de mais de 20 países feita durante 15 anos revelam que Portugal é o país com um índice mais alto de racismo biológico com 52,9% contra a média europeia de 29,9 % e é o quinto país com um nível mais elevado de racismo cultural com 54,1% contra a média europeia de 44%.


Em 2018 a Inspeção Geral da Administração Interna recebeu 860 queixas contra a atuação das forças de segurança e tal como nesta vertente na saúde, educação e habitação o racismo manifesta-se. É fácil compreender o racismo estrutural, começando pelas comunidades racializadas que são arrastadas para a periferia das cidades, o que só acentua as desigualdades. Os trabalhos mais precários e mal pagos são realizados por pessoas racializadas, basta observar quem se encontra nas funções de limpeza de transportes ou supermercados. Esta situação vem na sequência das más condições de habitação, dificuldade de acesso à educação, saúde entre outros serviços. Mesmo quando as funções são equivalentes às de pessoas brancas, a descriminação racial é evidente, o que se efetiva na discrepância salarial. No campo da política, poucas são as personalidades que representam a luta antirracista fazendo diretamente parte do movimento, felizmente três mulheres negras integraram o parlamento em 2019: Joacine Katar Moreira, Beatriz Gomes Dias e Romualda Fernandes.


A ideia de que Portugal não é um país racista é comum e tem um motivo para tal que parte da educação. As crianças crescem com a história a colocar os portugueses como bons colonizadores, branqueando os horrores passados o que traz uma certa comodidade ao povo português. O facto de se evitar constantemente discutir a colonização dificulta a luta contra o racismo, já tão enraizado, o que leva a que quem não sofre de preconceito nem pense objetivamente sobre a questão. Portanto é necessário alterar a forma como a colonização é abordada, sendo substituída pelos factos, uma altura sangrenta onde os povos africanos foram vendidos para trabalho escravo, foram violados e mortos. Tal como este tema os descobrimentos são descritos como a época mais heroica da história portuguesa, ignorando por exemplo a escravatura. A forma como são esquecidas partes fundamentais de acontecimentos repetidamente contados de geração em geração cultivam a noção de que o preconceito não faz parte da sociedade portuguesa.


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