sábado, 19 de dezembro de 2020

A vida social depois da cura.





A um de janeiro de dois mil e vinte por entre festejos e desejos para o novo ano era difícil prever a realidade que teríamos pela frente. A pandemia de Covid-19 já é a pior crise mundial dos nossos tempos, crise essa imprevisível e que deixará para sempre uma marca na humanidade. Sem dúvida o atual contexto trouxe uma maior consciência para a fragilidade tão intrínseca ao ser humano, que se julga invencível até que situações como esta se concretizem. Como é evidente, qualquer compressão social prolongada gera no Homem um irrevogável desejo de liberdade, o que se irá traduzir numa enorme vontade de proximidade aos outros logo que as restrições tenham um fim. Superado o medo do contágio, a vontade relativa a prazeres e excessos será notória, tal como se verificou por exemplo nas anteriores guerras mundiais onde após o momento de tragédia, os brindes, abraços e contatos foram retomados em força. Os cumprimentos com o cotovelo não serão um hábito após a pandemia mas com certeza haverá um maior alerta em relação à higiene. Quando tivermos a capacidade de olhar para o momento em que vivemos de uma forma distante iremos dar um valor extraordinário à saúde, e à tranquilidade que é viver sem ter em mente a incerteza de estarmos saudáveis. Devido à impossibilidade de contacto físico para a segurança de todos ao longo de todo este período de tempo a vida social passou para a tela dos equipamentos digitais o que obviamente tem consequências sobretudo naqueles que vivem de forma obsessiva e solitária através do mundo digital, levando a patologias nas relações sociais. No entanto, a criatividade também teve lugar para que soluções fossem encontradas para a adaptação aos tempos conturbados em que vivemos e que se irão estender de alguma forma ao futuro. A maneira como iremos viver, trabalhar, consumir e socializar será diferente após uma cura.

É previsível a criação de novos modelos de negócio para os restaurantes. Alguns daqueles que já se adaptaram às circunstâncias atuais são denominados de restaurantes fantasma ou seja funcionam apenas à base de entregas ao domicílio. Tendo em conta a possibilidade de novas vagas da pandemia, este setor deve manter-se disponível para este tipo de serviço que deve inclusive após todo o surto continuar como uma tendência.  Ao nível da cultura artistas e produtores culturais passaram a garantir a existência de espetáculos online, tours virtuais para museus que conectam o real com o virtual o que potencia as experiências culturais imersivas pondo-as em voga. O trabalho remoto tornou-se também parte do novo normal, apesar de ser comum no cotidiano de muitas pessoas tornou-se uma obrigação para tantas outras, várias empresas das mais diversas áreas organizaram-se segundo esta modalidade o que revelou algumas vantagens e uma continuidade que levará à redução de deslocações, diminuindo o congestionamento de cidades, a uma não necessidade de um espaço físico para albergar os trabalhadores que cumprirão as suas atividades com maior flexibilidade. Quanto ao ensino à distância, tudo indica que esta forma de ensino se irá expandir abrindo espaço para a educação à distância, seja para substituir de alguma forma a velha escola como a conhecemos, ou pelos cursos online e plataformas de conhecimento para a aprendizagem de línguas ou outras atividades que despertaram a curiosidade de muitos. O encerramento das escolas, levou a que por um lado o sentido prático dos alunos e o envolvimento dos encarregados de educação fosse muito maior, por outro, as desigualdades dado que os recursos online não são acessíveis a todos acentuaram-se. As compras online passaram a ser obrigatoriamente a solução para a aquisição de bens, as vendas durante o período de confinamento aumentaram neste formato e devido aos resultados positivos que os compradores obtiveram por esta via é previsível que se torne um hábito.

Uma grande mudança verifica-se na forma como passamos a consumir, a luta por bens essenciais deixou de ser uma metáfora tendo-se materializado, tornando este um vetor de transformações num período de reflexão. Antes do contágio, consumo era a palavra de ordem, mesmo no que se tratava de produtos sem utilidade prática, o mais relevante era ter. A sociedade de consumo é um conceito que define um modelo de reprodução social baseado no consumismo. A sociedade consumista é caracterizada como uma sociedade onde as relações de consumo ocupam uma posição estratégica na organização social e onde são criados bens para comercialização onde o marketing tem uma função importante na construção dos desejos de consumo da população. O modelo mais conhecido de sociedade de consumo existente no mundo é o dos Estados Unidos. O célebre "American way of life" foi usado durante décadas como modelo de desenvolvimento com base na felicidade pela aquisição de bens e serviços, na qual o ser do sujeito confunde-se com o ter. A importância que este fenômeno ganhou em Portugal explica-se pelos recursos que foram ficando disponíveis, pelo aumento dos rendimentos e o aumento da oferta, o que levou a que o consumo subisse rapidamente para as prioridades da vida social, até se tornar num dos traços principais da nossa sociedade. Alguns dos fatores que explicam a consumo são a evidente necessidade de satisfação de necessidades como o vestuário e alimentação, a compensação de sentimentos como a perda e a insegurança, é uma forma de distinção social e reforço dos padrões de superioridade ou inferioridade entre indivíduos, para revelar sucesso, e por último para a demonstração de estados de espírito e como uma maneira de comunicação interpessoal. No atual contexto é um pouco diferente, com a falta de recursos de muitos, a diminuição de constante contacto com lojas, e a necessidade por parte daqueles que compram de saber mais sobre a marca em questão e a sua responsabilidade social. Não existe espaço para desperdícios.

As transformações passam também por hábitos e comportamentos, foi redescoberta a simplicidade das coisas. Com todo este cenário é evidente a necessidade da tomada de medidas pelos governos, sobretudo tendo em conta a crise económica que se avizinha. Algumas das prioridades devem ser a saúde, o apoio a empresas e famílias, e deve ser feito com urgência para que os danos económicos não sejam fatais. Como crise global que é a pandemia, necessita de uma resposta global, é obrigatória uma articulação ao nível mundial. O coronavírus tem funcionado como um acelerador de futuros, antecipando transformações que estavam ainda em andamento mas hoje ganham um novo sentido devido à revisão de valores efetuada. Imaginar a vida depois da Covid-19 pode assemelhar-se a um exercício de futurologia, porém é fácil compreender que o  mundo que conhecíamos não voltará mais, seremos pessoas diferentes e faremos parte de uma sociedade em mudança.





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