domingo, 20 de dezembro de 2020

Monoparentalidade

  O conceito sociológico de família felizmente evoluiu e, com  o passar dos anos, modificou as suas dimensões, organizou-se de formas diversas e viveu segundo novos valores. Contudo, a imagem de uma família "tradicional", composta por homem, mulher e os seus filhos, ainda é defendida por aqueles com uma mentalidade mais conservadora. O atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, já deixou claro diversas vezes em seu discurso ser a favor apenas deste conceito de família - "Apresentem uma emenda à Constituição e modifiquem o artigo 226, que lá está escrito que família é homem e mulher. E mesmo mudando isso, como não dá pra emendar a Bíblia, eu vou continuar acreditando na família tradicional", disse o presidente na "Marcha para Jesus", em 10 de agosto de 2019. Entretanto, ao pensarmos nas diferentes formas que uma família pode apresentar e um país com 5,5 milhões de crianças sem pai no registro (Censo Escolar, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ e divulgado em 2013), não será este discurso hipócrita e desrespeitoso com o grande número de pessoas que são responsáveis por famílias monoparentais? 

 Para responder a esta pergunta é preciso primeiro entender o fenómeno social da monoparentalidade. A família monoparental surge quando apenas um dos pais se responsabiliza pela criança. Diferente de uma família mais tradicional, a criação do jovem dependerá exclusivamente de um dos pais. Independente de sua formação, seja mãe e criança ou pai e criança, isso se configura como uma família monoparental. Em décadas passadas, esse modelo de família era quase que repudiado socialmente, a depender da composição. Se um homem cuidasse de seus filhos desacompanhado, não receberia julgamentos de um grupo social, diferente da mulher. Ainda vista sob um modelo arcaico, uma mulher que dispusesse a cuidar dos filhos sozinha podia ser marginalizada.

 A monoparentalidade pode ainda apresentar duas modalidades distintas. A família originária é representada por uma família monoparental com a mesma estrutura desde o início, ou seja, é composta pela relação entre um dos pais com os filhos sem o auxílio do companheiro ainda na origem. Este seria o caso concreto das 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento. Já a família superveniente é a que se tornou monoparental ao longo do tempo. Isso aconteceu por meio de um divórcio ou pela morte de um dos pais. Esse modelo de família sempre pode acabar no anterior, pois o abandono ou morte de um ou dos dois abre a janela para uma nova formação. 

 Concluo então que o significado de família transcende tudo o que podemos ver. Não existem instrumentos que possam medir a ligação entre pais e filhos, bem como organizá-los entre maior e menor prioridade. Toda família, independente da sua apresentação, deve ser respeitada e conservada. Sendo assim, defender uma família tradicional baseando-se na sua forma e dimensão seria desclassificar famílias não-nucleares que exercem com excelência seu papel social de família.



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