Entende-se por reprodução social o processo mediante o qual uma sociedade,
através de diversos mecanismos, reproduz a sua própria estrutura. As
sociedades, de modo a subsistirem, produzem de forma contínua, bens materiais e
pessoas suficientes de forma a acionar essa produção. Quanto à sociologia,
interessa o processo de reprodução cultural dos seres humanos que é controlada
pelos grupos e classes dominantes. Assim sendo, a preservação da ordem social
obriga a que os sujeitos adotem os padrões de comportamento já estabelecidos.
Por meio do sistema de ensino, dos mass media, da influência que exercem sobre
as próprias famílias, os grupos e as classes dominantes certificam as condições
que propiciam a transmissão de saber técnico, a interiorização dos valores e
das normas dominantes na sociedade.
O sociólogo Pierre Bourdieu, usa o conceito de habitus para explicar o mecanismo pelo qual aprendemos a fazer parte da sociedade e a reproduzi-la continuamente por meio das nossas ações e, ao mesmo tempo, a modificá-la. Através do habitus, ou seja, um conjunto de disposições permanentes, produzimos ações e pensamentos com um limite estabelecido: as condições históricas e socialmente determinadas em que um sujeito é produzido. Logo, sendo produto de um conjunto de condicionamentos, o habitus visa a reprodução da lógica desses mesmos condicionamentos. A probabilidade de nos confrontarmos com indivíduos cujo habitus é muito distinto do nosso é mais limitada do que a de nos vermos perante aqueles que mais se parecem connosco, levando a uma limitação da possibilidade de transformação de valores e normas. Deste modo, as pequenas ações do cotidiano permitem garantir a continuidade do sistema social existente e a reprodução do mesmo. Assim, o sociólogo analisa os fenómenos de insucesso escolar, a escolha de cursos e a mobilidade social, pela existência de mecanismos que apesar de não impedirem a transformação da estrutura social, a limitam.
Os seres humanos são produzidos e reproduzidos culturalmente com o propósito da preservação das condições sociais de produção e da ordem social. Para que tal se verifique na sociedade atual é preciso que, por exemplo, que os futuros trabalhadores sejam polivalentes, aptos para se ajustarem à permanente inovação tecnológica e de aceitar a ordem estabelecida. Neste sentido, a reprodução social permite que as particularidades das estruturas sociais se preservem durante longos períodos de tempo, certificando uma continuidade nas práticas sociais que os sujeitos seguem. As instituições têm um papel fundamental no processo de reprodução social, pois são elas que ensinam os valores, as normas e os saberes práticos que garantem a conformidade com os padrões que dominam. É por meio das instituições que se fundamenta a atuação desenvolvida pelos grupos dominantes na produção e reprodução cultural dos seres humanos.
Um exemplo do impacto das instituições na reprodução social é a escola. Segundo Bourdieu, o conceito de “violência simbólica” é o ato de imposição arbitrária do sistema simbólico da cultura dominante sobre os restantes sujeitos. Quanto à ação pedagógica, seria o meio em que as instituições de ensino subjugam o sujeito e a sua individualidade, levando-o a posicionar-se no mundo social em conformidade com as noções preestabelecidas pela cultura dominante. Toda a ação pedagógica é caracterizada por tentar caminhar para a hegemonização cultural tendo como base o sistema simbólico do grupo dominante da sociedade. O sociólogo procurou demonstrar que dentro do processo de educação, aqueles que estão mais ajustados ao modelo cultural imposto são os que conseguem maiores hipóteses de inclusão social, já os que apresentam um comportamento considerado desviante acabam por sofrer sanções de cariz social. Bourdieu concluiu ainda, que a reprodução social é uma condição importante para a existência de um sistema com base na dominação para que os moldes vigentes de uma organização social persistam.
As instituições, sendo influenciadas pelas estratégias desenvolvidas pelos atores sociais, podem desempenhar um papel ativo na reprodução social e dar origem a uma transformação social. Assim como o processo de reprodução social se deve muito à estabilidade das práticas sociais, as ações dos indivíduos também podem contribuir para transformar as estruturas sociais e as próprias instituições sociais. O processo de reprodução social resulta da interação entre as estruturas sociais e a ação social, que pode também contribuir para a mudança social. Os conceitos de reprodução e mudança social, estão relacionados, dado que a ação dos indivíduos e das instituições sociais, pode contribuir tanto para a reprodução como para a mudança social. A ação social pode contribuir, não apenas para reproduzir a estrutura social, como também para a transformar. A ação social pode ter consequências inesperadas, que levam à mudança social, por exemplo, impor as normas sociais de uma maneira autoritária pode conduzir à revolta contra os padrões de comportamento socialmente estabelecidos.
O ativismo é um reflexo de como a ação individual ou coletiva combinada com o contributo das instituições sociais leva à mudança social, de modo a transformar determinados parâmetros da sociedade como as lutas pela igualdade de género, a luta anti racista e pela crise ambiental que estão na ordem do dia. O ativismo digital contempla um conjunto de atividades de campanha com recurso a tecnologias digitais, incluindo as redes sociais. Com a ascensão da Web 2.0 e das redes sociais, as multidões passaram a estar conectadas a um nível que favorece o fluxo contínuo de múltiplas vozes e a organização de ações coletivas. A morte de George Floyd, a 25 de maio de 2020, às mãos de um polícia, chocou o mundo e gerou um intenso debate no digital. Por toda a internet multiplicaram-se publicações relativas à violência policial e informação com o intuito do combate ao racismo. O ativismo no âmbito da luta anti racista contribuiu para organizar, disseminar, exercer e multiplicar campanhas de sensibilização e protesto, contribuindo de uma forma direta em prol de transformações sociais e políticas e disseminação de campanhas em defesa da causa e reivindicação de direitos num combate a injustiças e poderes instituídos.


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